segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Uma carta de Santo Tomás de Aquino

 

Tradução & Notas - Maria Clara Pinheiro Skotbu, Rafael R. Daher


Apresentação – Maria Clara Pinheiro Skotbu


 Na filosofia tomista, a categoria de “possivel” se actualiza mediante a acção de uma causa ou convergência de causas.

 O que quis Santo Tomás de Aquino demonstrar a um cavaleiro nobre que na Idade Média exercia a função militar…

O texto que se traduz é uma carta dirigida a um cavaleriro que andava envolvido em questões com o Imperio Romano-Germãnico e os direitos do Papa

Faz-se notar a importancia da astrologia e da alquimia nesse tempo e também é importante em relação à atitude de S.Tomas de tomar o tema como objecto de análise racional, o que permite verificar que ele foi sensível aos casos que nào eram explicáveis à luz do quadro conceptual herdado da teoria aristolelico, o que o leva a encontrar razões, algumas compatíveis com a fé e a sua teoria das almas separadas, dos milagres e do poder do espiritual modificar o material.

A verdade natural e divina não pode ser mudada pelo homem através de leis monarquicas, eclesiásticas ou decretos papais. Seguirá Tomás de Aquino em brilhante demonstração filosófica sobre as operações ocultas da natureza.

(Ultramontano termo que vem da região além das montanhas era metonímia usada na época em que vivia Tomás de Aquino para designar um papista aquele então tomava posição pelo Papa contra o Império na querela das Investiduras.)

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Para um certo cavaleiro além das montanhas

Sobre os trabalhos ocultos da natureza ou sobre a causalidade dos corpos celestiais

Posto que em alguns corpos naturais surgem certas atividades naturais cujos princípios não podem ser compreendidos, Vossa Excelência pediu que eu escrevesse o que penso sobre eles. De fato, vemos que o corpo segue os movimentos de seus elementos governantes. Uma pedra, por exemplo, é movida em direção ao centro e segundo a propriedade da terra, sua governante. Os metais também têm o poder de resfriar segundo a propriedade da água. Portanto, todas as ações e movimentos, quaisquer que sejam, de corpos compostos de elementos ocorrem segundo a propriedade e o poder dos elementos dos quais tais corpos são feitos . Agora, tais ações e movimentos têm uma origem clara, sobre a qual não há dúvidas. Mas há alguns funcionamentos desses corpos que não podem ser causados pelos poderes dos elementos: por exemplo, o ímã atrai o ferro e certos remédios purgam determinados humores em determinadas partes do corpo. Ações desse tipo, portanto, devem ser atribuídas a princípios mais elevados.

Precisamos considerar que um agente de categoria inferior atua ou é movido segundo o poder de um agente superior de duas formas: a primeira, na medida em que a ação dele procede, segundo uma forma e poder conferidos por um agente superior, como a lua iluminada pela luz recebida do sol. Por outro lado, atua apenas por força do agente superior, sem receber forma de agir. Ele é movido apenas pelo movimento do agente superior, como um carpinteiro usa uma serra para serrar. O ato de serrar é, de fato, primeiramente o trabalho do artesão, mas secundariamente da serra, na medida em que esta é movida pelo artesão, mas não porque tal ação siga alguma forma e poder que poderia permanecer na serra depois que o artesão a usou. Se, então, os corpos elementares participam das ações ou movimentos de agentes superiores, deve ser por uma ou outra das formas acima mencionadas; ou as ações resultam de formas e poderes implantados por agentes superiores nos corpos elementares, ou as ações meramente seguem o movimento dos corpos elementares pelos agentes superiores.Os agentes superiores além da natureza dos elementos e corpos elementares não são apenas corpos celestes, más também substâncias superiores distintas. Cada um deles produz nos corpos inferiores ações ou movimentos que não surgem de uma forma já implantada nos corpos inferiores, mas que provêm unicamente do movimento dos agentes superiores. Pois o mar, em sua arrebentação e retração, tem esse movimento do superior, além da propriedade do seu elemento, isto é, pela força da lua, não por meio de uma forma implantada na água, mas pelo movimento da lua, que faz a agitação. Então, novamente, as imagens nigromantes têm efeitos que não emanam da forma que receberam, mas dos demônios ativos em tais imagens. E pensamos que a mesma coisa às vezes acontece por meio da ação de Deus ou dos anjos benfazejos. Temos os fatos dos enfermos que foram curados à sombra do Apóstolo Pedro ou de alguma doença que se dissipou ao entrar em contato com as relíquias de um santo, o que não atribuímos a uma forma implantada nesses corpos, mas apenas ao poder divino que usa os corpos para tais resultados.

É claro, nem todos os funcionamentos dos corpos elementares que manifestam operações ocultas são assim. Em primeiro lugar, tais operações não surgem de alguma forma já implantada, posto que não são encontrados ordinariamente em todos os indivíduos da mesma espécie: nem todos os ossos e nem todas as relíquias dos santos curam ao toque, mas as de alguns e em alguns momentos, sim. E, portanto, nem todas as imagens têm efeitos desse tipo, nem toda água flui e reflui segundo o movimento da lua. Na verdade, os funcionamentos ocultos encontrados em alguns corpos também são encontrados em todos os que são da mesma espécie, como em “todo ímã atrai ferro”. É por isso que essas atividades surgem de um só princípio intrínseco presente nas coisas da mesma espécie. Em segundo lugar, as atividades mencionadas acima nem sempre procedem o mesmo resultado pelos mesmos meios. A prova evidente disso é que elas não procedem de um poder residente e permanente, mas apenas do movimento de um agente superior, assim como a serra nem sempre corta a madeira colocada em contato com ela, mas apenas quando movida para este fim por um artesão. Certas operações ocultas, entretanto, são sempre passivas e precisam ser postas em uso, para que produzam os mesmos efeitos – como o ruibarbo, que sempre purga um humor típico . E disso conclui-se que a ação decorre de algum poder residente e permanente no corpo.

Resta agora considerar aquele princípio intrínseco permanente do qual procedem tais atividades. Certamente, este princípio é aquilo que chamamos de potência, pois é aquilo pelo qual um agente age ou sofre uma ação. De fato, essa potência é assim chamada devido ao limite da ação possível de qualquer coisa que receba o nome e a descrição de poder. De fato, essa potência conforme referida ao limite da atividade possível de qualquer coisa recebe o nome e a descrição de poder. Portanto, o poder que é o princípio de tais ações e paixões é visto como derivado, principalmente por conta da forma específica de uma coisa, posto que todo acidente que é próprio de uma espécie é derivado dos princípios essenciais da mesma espécie. Então, para explicar as paixões características de seus efeitos, tomamos como causa uma definição que designa os princípios essenciais das coisas: mas o princípio da essência do objeto é uma forma existente em determinada matéria. Desta forma, tais poderes devem proceder das formas das coisas, segundo a existência em suas próprias matérias.Em segundo lugar, posto que a natureza de uma coisa é chamada de sua forma e matéria, se houver algum poder de uma coisa que não é delas derivado, consequentemente não será um poder natural para a coisa e nenhuma atividade ou paixão procedente de tal poder será natural. Mas tais atividades além da própria natureza não são duradouras; por exemplo, a água só fica quente quando aquecida; mas as atividades ocultas que agora tratamos são sempre idênticas ou o são no tanto quanto possível. Daí a conclusão: tais poderes são essenciais em tais ações e procedem de uma forma conforme existente em tal matéria.

Os platônicos, de fato, atribuíam o princípio das formas substanciais em substâncias separadas, cujas representações particulares acreditavam ser formas naturais implantadas na matéria; mas este principio não pode ser suficiente. Em primeiro lugar, a coisa que está a ser feita deverá ser como a que será. Outrossim, o que ocorre nas coisas naturais não é forma, mas uma mistura entre forma e matéria, pois neste caso, algo é feito para que seja. É apropriado dizer que é o composto subsistente, enquanto a forma é o meio para algo existir. Portanto, o vir a ser não é a forma correta, mas um composto, e o que faz as coisas naturais existirem não é apenas a forma, mas o composto.

Em segundo lugar, as formas existentes fora da matéria não podem ser movimentadas, pois o movimento é o ato de algo em potência, como é o caso da matéria-prima. Assim, tais formas são necessariamente imutáveis; de uma causa que é sempre a mesma, procedem formas que são sempre as mesmas . Mas isso não é evidente nas formas dos corpos inferiores, por conta do surgimento e desaparecimento de tais corpos. Os corpos celestes são os princípios das formas dos corpos corruptíveis e estes são diferentes segundo suas respectivas quedas e ascensões, causando o vir a ser o falecimento dos corpos inferiores.Um traço de ambos os princípios fica claro no próprio operar das coisas naturais: é evidente como as atividades da Natureza ocorrem com uma certa mudança e segundo um intervalo de tempo determinado, posto que há um corpo celeste, e através dele a contagem do tempo se baseia. Entretanto, por conta das substâncias intelectuais separadas, verifica-se nas operações da Natureza que estes corpos celestes procedem por caminhos fixos e com objetivos determinados, com ordem e maneira adequadas, como as coisas feitas pela habilidade do homem, de modo que a obra da Natureza parece ser a realização de um Sábio Agente. Assim, dizemos que a Natureza age com sabedoria . Ora, o trabalho do sábio é necessariamente bem ordenado, pois dizemos corretamente que essa é a característica do sábio, através de sua disposição harmoniosa.

E assim surgem as formas das coisas inferiores da sabedoria das substâncias separadas por meio do poder e do movimento dos corpos celestes, alguma ordem deve ser encontrada entre essas formas de corpos inferiores, e de tal forma, a saber: algumas são menos perfeitas e mais próximas da natureza, enquanto outras, entretanto, são mais perfeitas e mais próximos dos agentes superiores. As formas mais imperfeitas, porém, e especialmente próximas da matéria, são as formas dos elementos, dos quais os corpos inferiores são compostos por suas matérias, e estes são de fato os mais nobres e, quando removidos de uma contrariedade entre elementos, ficam próximos da uniformidade de composição, e assim tornam-se de uma forma ou de outra semelhantes aos corpos celestes, que são livres de qualquer contrariedade. Ora, o que é composto de opostos não é nenhum dos opostos em ato, mas apenas em potência. E, portanto, quanto maior a uniformidade de mistura da qual esses corpos se aproximam, tanto mais nobre é a forma que recebem de Deus. Tal é o corpo humano que, gozando de uma composição muito uniforme, como indica a excelência do tato nos homens, tem a mais nobre das formas, a saber, uma alma racional.

Os poderes e as operações devem ser proporcionais às formas de onde procedem. E assim é que as formas dos elementos que são em sua maioria materiais dão origem a qualidades ativas e passivas, por exemplo, calor e frio, umidade e secura e outras coisas semelhantes que dizem respeito à distribuição da matéria . Mas as formas dos amálgamas, ou seja, dos corpos inanimados como pedras, metais, minerais, além dos poderes e atividades que compartilham com os elementos de que são compostos, têm outras virtudes e atividades mais nobres decorrentes de formas específicas; V.g.: o ouro alegra o coração e a safira estanca hemorragia. Assim, sempre em ordem ascendente, quanto mais nobres as formas específicas, tanto mais excelentes são os poderes e operações que vêm delas, até que a forma mais nobre, a alma racional, seja alcançada, que tem poder intelectual e atividades que não apenas superam o poder e atividade dos elementos, mas também todo poder e atividade corpórea.

Agora, a partir das formas em cada extremidade da escala, devemos julgar as formas intermediárias. Pois como o poder de aquecer e resfriar está no fogo e na água como resultado de suas formas especiais, e como o poder intelectual e a atividade do homem surgem de sua alma racional, assim todos os poderes e atividades das coisas entre as quais excedem as virtudes dos elementos, surgem de suas formas próprias e remontam a princípios mais elevados e aos poderes dos corpos celestes e, ainda mais, às substâncias separadas. Pois desses princípios derivam as formas dos corpos inferiores, excetuando-se apenas a alma racional, que procede de uma causa imaterial, isto é, de Deus, que de forma alguma é produto do poder dos corpos celestes. Do contrário, não poderia ter poder intelectual e atividade totalmente livre do corpo.Portanto, como tais poderes e trabalhos são derivados de uma forma específica que é comum a todos os indivíduos da mesma espécie, é impossível para um indivíduo de uma espécie ter algum tipo de poder ou atividade além dos outros indivíduos da mesma espécie apenas porque surgiu sob uma disposição definida de corpos celestes . No entanto, é possível que em um indivíduo da mesma espécie o poder e a atividade decorrentes da espécie sejam encontrados com maior ou menor intensidade, de acordo com uma distribuição diversa da matéria e a configuração diferente dos corpos celestes no surgimento deste ou aquele indivíduo.Também não se pode dizer que tais atividades resultam do poder dos corpos celestes, porque agem apenas de forma natural sobre as coisas inferiores. E o fato de um corpo ter tal ou qual forma não o torna mais ou menos adequado para receber a impressão de um agente natural. Assim, é impossível que as imagens ou esculturas que são feitas para produzir efeitos extraordinários tenham sua eficácia através dos corpos celestes, embora pareçam ser feitas sob certa constelação. Eles só o recebem de agentes superiores que trabalham por meio de imagens e esculturas.

Assim como as imagens são feitas de matéria natural, mas adquirem sua forma por meio da habilidade humana, também as palavras humanas têm de fato sua matéria, isto é, os sons produzidos pela boca do homem, mas têm seu significado e, por assim dizer, sua forma a partir do intelecto, que expressa seus conceitos por meio de tais sons. E assim, por uma razão semelhante, as palavras humanas não têm qualquer eficácia para mudar um corpo natural pelo poder de alguma causa natural, mas apenas por alguma substância espiritual.

Pois essas obras que são efetuadas por meio de tais palavras, ou de qualquer tipo de imagem ou escultura, ou qualquer outra coisa, não são naturais, porque não surgem de uma virtude intrínseca, mas apenas de uma virtude extrínseca. De outra forma, devem ser classificadas como superstição. As atividades, entretanto, que dissemos acima, surgem das formas das coisas e são naturais, posto que procedem de princípios internos.

E então, deixe o que foi dito sobre o funcionamento e atividades ocultas ser suficiente para o presente.

sábado, 18 de agosto de 2012

Quem é Ele?

Vejo-o vindo pelo ar, num vôo lento.
Suspenso num olhar, acima de tudo clandestino contornando a paisagem escura.
Eis então que se revela descansando na janela, e me toca sem contato..
Tua face, teu amor sem dono...

Em tuas asas vem trazendo outra vez
aquelas memórias
do beijo nunca selado
que é dito no silêncio
fugidio das palavras

Não te reclamo abrigo
sou morada da ausência
presente entre o sono de dois sóis
separados
Pelo tempo do mundo.

Noutra noite aleatória,
entre o sono de dois sóis
separados pelo tempo do mundo
Ausência retrocede a morada.
Tão suave algia, radiante, que sem surpresa se acomoda.
Vejo-o vindo pelo ar,
num vôo lento
suspenso num olhar clandestino contornando a escuridão

Eis então, que se revela descansando na janela
e me toca sem contato
atravessando nódoas em reparo.
Selvagem em tua face indiferente,
teu amor sem dono
em tuas asas vem trazendo outra vez
memórias de dias em movimento...

As Asas e o Corpo

 Sei que me compreenderás completamente. Talvez, eu esteja um pouco nostálgica com algumas lembranças de minha infância. 

 Estou indo - estou chegando a lugares distantes em minha memória... Agora o chão corre depressa, as luzes brilham na  noite. Curva-se, inclina-se e sobe.  Já não toca mais o solo. Estou dentro de uma nuvem rasa. 
Afastam-se as casas, todas as moradias tornam-se pequenas e reluzentes. Agrupam-se em  vilarejos. 
 Estar acima e observar o todo sem pormenores. Embaixo, partículas, cheia de detalhes. Eu não sei se prefiro os detalhes... Ou a completude indetalhada. De certo que o todo tem organização. Mas, os detalhes são tão complexos; o jogador com uma única carta na mão a desvendar todo o baralho...

Sobe
...

Na janela, a neblina enche de claro o marrom escuro.  Raios entrecortando a paisagem invisível. É o Cumulus  Nimbus. 

O voou segue em crise. O problema aconteceu na decolagem.
No escuro, só se vê o letreiro em vermelho que pede para atar os cintos. Estou presa de pavor. A sensação a qual viajo é de chegar ao meu destino e não mais voltar. E de outro modo paradoxo a leve surpresa de  gostar de voar.

Espreitam-me algumas descobertas
.

-Lembra que  brincávamos? Nós como se fossemos crianças; eu estava dirigindo um filme na vida real, um filme em minha própria vida e se estilizaria a uma comédia romântica. Como seria estar sem roteiros, sem personagens, sem a forma a qual idealizo. Ainda possível nossas existências? 


Minha mente em fragmentos...

Acordo agora,
o relógio em formato de casa,
o interruptor do quarto é um soldado.

 Vou à escola
 e o relógio me intriga...
 Os ponteiros são de um eterno verde,
os algoritmos tem vida própria...

Num algarismo existe um universo.
No universo do relógio existe o tempo.
Eu triste por não ser a linha...
Não estou sequer na curva do tempo...

-Terei que compor frases para quebrar a barreira
entre a minha mente e os outros...

Aquela sou eu,
com culpa sentada no banquinho,
 não brinco,
não falo..
e ninguém sabe a minha culpa...

Não tenho medo do gelado...
Aquela sou eu na neve.

    Sobrevoando o mar, num momento de reflexão que acomete a quem viaja ao fitar o oceano, percebi que em toda minha vida tenho procurado por algo que não sei o nome.

Então, o homem sentado ao lado da janela começou uma troca de palavras, enquanto tremíamos no ar. 
Em um momento, a turbulência cedeu. E todos estavam aliviados, a aeromoça começou a servir os passageiros e começamos a cair.
   O homem fala  comigo tranquilamente como se aquilo não estivesse acontecendo, como se não existisse aquele momento pavoroso. Como se estivéssemos a nos olhar e a trocar palavras em um planeta vazio de imagens. Nós imagens e palavras de um planeta inteiro. Em perfeita relação de calma e ternura que estranhamente escondia-se em um pequeno universo dentro do caos. Segurou minha mão e permaneceu assim durante toda a viagem, suave e com  timidez. Protegendo a mim de todos os temores. Nada falamos sobre estarmos de mãos coladas, continuamos conversando como dois desconhecidos.
   Era proibido falar de nossas emoções. Era aquele silêncio apaixonado. O Silêncio de quando não há intimidade. Ele fala como se não fossemos morrer, como se esse momento fosse eterno, eterno na repetição do presente para sempre...

  Os minutos eram longos e eu lhe perguntava a hora a cada dois minutos, ele respondia todas as vezes, pacientemente...

  E quando o avião começou a descer depressa, víamos uma cidade se aproximar... Ele encostou ao lado da janela para que eu pudesse me aproximar. Meu rosto junto ao dele, a sua voz tranquila...

-Olha ali, que lindo! Estamos chegando, veja Brasília! Você vê por ali? Ali são as asas do avião e o meio dele, o corpo...

-Estamos chegando!  E o avião desce tão depressa...

E quando pousou, o piloto anunciou:
- Bem vindos ao aeroporto de Confins em Belo Horizonte.

Foi um pouso de emergência, havia bombeiros nos esperando na pista... Não eram as tais asas, o tal corpo...
 A Velha Senhora humilde - disse - menina, não precisa ter medo. Quando chega a hora de morrer, é a hora. Posso estar em casa, avião ou em qualquer situação e isso ocorrerá. Será na minha hora, a hora que Deus quiser. 
A inocência  de nunca ter questionado sua cultura, os seus costumes, as suas crenças. A falta de pensar sobre, a falta de ciência no olhar livrou-a do pavor. Para ela foi como uma coisa banal. Sem sofrimentos.

O homem lançou um olhar para mim, como quem contemplava comigo a inocência da senhora... Erámos indivisíveis. Pensávamos no silencio e sempre igual. Continuou com seus grandes olhos castanhos fixos em mim... Porquanto desciam as pessoas do avião, um longo olhar. E foi doce. 

Um olhar cheio de sentimentos. Senti vontade de dizer-lhe: eu te amo, e não era apenas um dizer. Era emoção que transbordava, eu sentia, eu o amava. Mas, ao invés de palavras, retribui o olhar. Com olhos de artista, com grande surpresa infantil. 


No aeroporto outro homem me esperava, trazia uma criança consigo que sorria para mim e me consolava a perda do meu mais recente amor. Só por ela foi possível essa transição. 
Ainda o vi de longe perdido por entre as pessoas e perdido em mim em meus novos momentos. Em minha nova realidade
. 
Esse sorriso terno de felicidade da criança em me rever foi tão singular quanto o meu amor... Representações nunca antes vistas por mim.. E talvez singulares no mundo inteiro. Às vezes tenho em mim expressões verdadeiras, mas, nem sozinha diante do espelho  quando é possível tirar algumas máscaras, posso revela-las. 

No espelho me pergunto, e não assimilo que aquela então sou eu... E confusa duvido ainda. Essa sou eu ou a outra que não está comigo em imagem. E em imagem não sei se meus olhos refletem a mesma imagem que outros veem... a visão não é um sentido exato.
Ah, os olhos não enxergam,  interpretam 

E sem isso não somos mais humanos e sim maquinas de repetição. Mas, tudo é repetição. Sobretudo, é original a reformulação do passado para o presente, a interpretação em si.  O mundo externo uma projeção de nosso eu. Enquanto o mundo externo não se move, move-se dentro dos olhares. De outro modo estamos presos a condenação do olhar idêntico, de regimes totalitários... Escravos de misérias conformados em suas repetições...

-Me escutas?

Sei que não gostas quando não acredito em Deus, quando não acredito no místico, quando não acredito na ciência... 
Mas vê! Eu descobri uma coisa...  Como seria possível acreditar em tais sentimentos, em tais fantasias, sem fé? 
Eu tenho religiosidade e fé e não tenho religião. A minha religião é expressa na loucura que trago para as palavras e para aquilo que ninguém pode ver...

O amor é uma religião no sentido de nada fazer sentido de não haver ciência, por não haver exatidão, verdades comprovadas...
Acredito em fantasias... Amo com tanta convicção... 

Que posso dizer que tudo que o que tenho em mim é expresso como religião. A cultura não abalou.

Com olhos cegos, eu sou incomunicável para o mundo. E te escrevo para dizer que agora, nesse momento você é a minha religião, a minha fé, como um deus e você existe único em meu mundo, em minhas metáforas que talvez não possas ver. Mas sei que sou mais sincera a ti do que ao espelho. 

E podes chegar a questionar então que o amor em mim é sempre igual e que se saíres da cena de nosso filme poderei continua-lo de mesmo modo. Não! Não é o mesmo amor. O amor está em mim como uma  fonte única... Mas os objetos são outros... A crença é outra, nunca a mesma. E gosto da tua. Gosto desse mundo. Até que seja destruída em mim a crença do teu mundo... Até que seja destruída em mim as minhas fantasias do teu mundo tão colorido.


E saio agora desse templo frio.

Ser

Queria ser a meretriz
que torna as suas noites mais quentes
e te deixa sem ar
queria ser a amiga
o seu lar,
queria ser essa fantasia
de
nós dois
queria ser o próprio sonho

Saudade não quero sentir
nem por um segundo.
Então meu anjo dos sonhos
faça o que te peço
de dia quero que me cubra de flores
e de noite
quero ser sua flor

Céu Azul

Manchada de laranja..
figuras
de um quadro
espelham-se
face a face
no banheiro
ao lado.
Transverso
sem verso.
cigarros, 
e as nossas roupas
misturadas no chão.

Antes da noite acolhedora...
-A comédia nada divina das ilusões.

Ultimos Amantes

Da moça do brinco de pérola
ficou
um brilho.
sua figura 
de flor
reluziu.
Em sua imagem
o amor
num barquinho de papel
ela levou.

A moça do brinco de pérola
dançou
o prelúdio
duma viagem
mágica,
cálida,
de um navegador.
Com as nuvens
um castelo
ele desenhou.

Veio a forte tempestade,
desmanchou
o castelo 
no paraíso,
Derramando
em
sua lateral
o choro,
cantiga destes amantes.

Flutuou valente o barquinho
em oceanos distantes .
Levava consigo 
aquela flor
Mas:

ali
desapareceu.

No profundo
templo do mar, 
única, 
numa caixa de vidro,
ela existe.


O Sonho acabou
- Agora é tempo de acordar.
ela diz.
Deito-me 
em seus braços, 
Realidade.
Disse a ela,
Coloca-me em teu colo
a adormecer. 

Eu já nem sabia mais chorar
destas lagrimas
de menino.
Agora me pego
a escutar
umas canções
de amores 
perdidos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tipos de Pseudo-Intelectuais Cinéfilos

Pseudo Nível - 1
Amelie Poulain - filme citado pelos pseudo-intelectuais adolescentes ou adultos jovens. É uma especie de "Poliana" cult para eles.
Tudo Sobre a minha Mãe - Almodovar é campeão nisso... é o diretor que mais faz filmes que são adorados pelos pseudos... todo pseudo cita ao menos um Almodovar., Os favoritos quase sempre são: Tudo Sobre a Minha Mãe, Fale com Ela e Má Educação.

Cinema Paradiso é sempre citado pelos pseudo como um dos filmes mais belos do mundo, e você so poderá discordar disso se optar por dizer que o filme mais belo é A Vida É Bela. Mas sempre preferem a primeira opção.

Pseudo que é pseudo acha Laranja Mecanica o filme mais inteligente ja feito na terra, Kubrick é o deus da pseudagem.

O pseudo Nivel 1 - Também adora os filmes: Memorias de Uma Mente Sem Lembranças, Requiem Para um Sonho ,Transpointg, Oldboy, Dogville e Magnólia.

Pseudo Nível 2 -
O pseudo nível 2 ainda é meio nivel 1 é como uma fase de transição.
O Pseudo nível 2 - Acha Kubrick um gênio, porem diz que 2001 é o seu melhor filme.
O Pseudo nível 2 - Adora citar filmes de Almodovar que ele acha que só ele viu, como: Lei do Desejo, Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos, Ata-me.
O Pseudo nivel 2 também gosta de Bertolucci, frequentemente fala sobre Os Sonhadores ou Ultimo Tango em Paris.
O Pseudo nível 2 - Aluga o Poderoso Chefão.
Pseudo nível dois cita: Táxi Driver, Clube da Luta.
O Pseudo nível 2 também é muito impressionado com Janela Indiscreta e outros filmes do Hitchcock.
Adora falar sobre Polanski.

Pseudo Nível 3
O pseudo nível 3 descobriu Bergman, e o seu filme preferido do Bergman é o Sétimo Selo.
Alguns também falam de Morangos Silvestres.
Pseudo nível tres gosta de dizer que ficou atormentado com Ensaio sobre a Cegueira.
Ele também gosta de falar de cinema brasileiro como: O Auto da Compadecida, Central Do Brasil, O Que é Isto Companheiro e Deus e o Diabo na Terra do Sol, ele adora Glauber Rocha.
Pseudo nível 3 começa a falar sobre Rodin, logo após ter assistido Camille Claudel.
O Pseudo nível 3 acha que conheceu a Nouvelle Vague e sua principal citação é: Os Incompreendidos do Truffaut.
Outro filme que ele provavelmente viu é Hiroshima, Meu Amor.
E Band à part por ter visto um trechinho nos Os Sonhadores.
Esse adora citar Chaplin pra tudo...

Pseudo nível 4:
Este é fã do Godard por causa de Alphavile e Acossado.
Seus filmes preferidos do Bergman são Gritos e Sussurros e Persona.
Adoram falar de filmes iranianos - Gosto de Cereja e Filhos do Paraíso.
Gostam muito da trilogia das cores (A Liberdade É Azul, A Igualdade é Branca, A Fraternidade é Vermelha)
Acham que os melhores filmes do Antonioni são: Blow-Up, Profissão Reporter
Já assistiram Amarcord e Oito e Meio do Fellini.

Nível 5:
Ja viram uns 12 a 15 filmes do Bergman e fazem comparaçoes entre : Cenas de um Casamento e Saraband.
Interpretam Persona, gostam de Fanny e Alexander, ja viram O Ovo da Serpente e Luz do Inverno.
São fãs do Godard gostam muito de: Viver a Vida, Pierrot Le Fou, O Desprezo, A Chinesa. Comparam os momentos do Godard.
Gostam do Buñuel: Viridiana, O Discreto Charme da Burguesia, O Anjo Exterminador.
Filme preferido do Fellini pra eles são: Ensaio de Orquestra, A Estrada
Detestam os filmes do nível 1 e se acham muito superiores e conhecedores de toda a verdade Cinéfila.
Do Antonioni gostam de A Aventura, A Noite, O Eclipse. Ja viram todos os filmes de Antonioni.
Gostam do Humor de Jacques Tati.
Já leram Edgar Allan Poe, Hegel, Freud, Skinner, Carl Rogers, Nietzsche, Montesquieu. Alguns entram em cursos como Cinema, Psicologia, Filosofia, Jornalismo. Por motivos cinéfilos.
Ja assistiram o expressionismo Alemão, viram Metropolis e o Gabinete do Dr. Caligari.
Adoram os Russos, já viram: Ivan, o Terrível.
E todos, todos, do Andrei Tarkovsky. Mas preferem Andrei Rublev pois quem gosta de Stalker está no nível 4.
Ja viram dois filmes do Sergei Paradjanov, A Cor do Romã e Os Cavalos de Fogo. Mas não encontram ninguém para falar sobre estes filmes.
Do cinema Brasileiro procuram os filmes mais cults.
Assistem filmes como Satantango so pra dizer que viram ou pra mostrar a sua ultra sensibilidade.
Vivem em busca de bons diretores desconhecidos...

Nível 6 - Assistem filmes de qualquer nacionalidade sem legenda.